Mergulhar com Tubarões

Cação é tubarão: como a merenda escolar no Brasil revela um problema global de conservação

A investigação da Mongabay mostra como carne de tubarão vendida como “cação” chega a instituições públicas no Brasil – e por que isso importa para conservação, transparência e saúde.

Sharky3. Junho 2026
Carne de tubarão em um supermercado em Tóquio

A Mongabay publicou em 1º de junho de 2026 a página especial “Shark Meat Nation”. Ela reúne uma ampla investigação sobre o mercado pouco visível de carne de tubarão no Brasil. O ponto central e incômodo da reportagem é este: o Brasil é considerado o maior consumidor e importador mundial de carne de tubarão, mas muitas pessoas não a compram nem a comem sob a palavra “tubarão”.

No Brasil, embalagens, cardápios e licitações usam com frequência a palavra “cação”. O termo pode se referir a tubarões ou raias, mas para muitos consumidores soa como um nome neutro de peixe. É exatamente essa falta de clareza que torna o mercado tão problemático: ela oculta qual espécie está sendo vendida, se ela está ameaçada e se a captura ou importação foi legal e sustentável.

A demanda pública estabiliza o mercado

A reportagem em português de ((o))eco e Mongabay descreve a profundidade com que a carne de tubarão apareceu nas compras públicas. Ela cita 1.012 licitações para cerca de 5.400 toneladas de carne de tubarão, no valor mínimo de R$ 112 milhões, distribuídas por 542 municípios e dez estados brasileiros.

A carne descrita como “cação” foi comprada, entre outros destinos, para escolas, creches, pré-escolas, prisões, instalações policiais e hospitalares, bases militares e abrigos para pessoas em situação de rua. A conservação dos tubarões torna-se, portanto, não apenas uma questão de pesca ou comércio, mas também uma questão de responsabilidade pública.

Já havíamos tratado desse aspecto no artigo “Carne de tubarão no menu: como as autoridades brasileiras servem espécies ameaçadas e colocam crianças em risco”. A nova página especial agora coloca a investigação em um contexto mais amplo e mostra que “cação” não é apenas um problema local de rotulagem, mas parte de um comércio internacional com cadeias de fornecimento difíceis de rastrear.

Saúde, transparência e proteção de espécies andam juntas

A carne de tubarão pode conter metais pesados como mercúrio e arsênio. Isso é especialmente sensível quando envolve crianças, pacientes ou outros grupos atendidos pela alimentação pública. Ao mesmo tempo, muitas espécies de tubarões e raias sofrem pressão global por pesca direcionada, captura acidental, finning, cadeias de fornecimento mal controladas e demanda por carne barata.

Depois da reportagem, já houve reações. O Hospital das Clínicas de São Paulo excluiu “cação” das compras por causa do risco de metais pesados. O Rio de Janeiro também proibiu carne de tubarão na maioria das escolas estaduais. Essas decisões mostram que melhor rotulagem e regras de compra podem ter efeito imediato.

Por que isso importa para mergulhadoras e mergulhadores

Quem encontra tubarões debaixo d’água geralmente vê apenas o lado carismático desses animais: curiosos, elegantes e muitas vezes surpreendentemente calmos. A investigação lembra que a pressão sobre os tubarões muitas vezes surge onde quase não é vista: em balcões refrigerados, cantinas, estatísticas de importação e nomes genéricos que transformam espécies ameaçadas em peixe aparentemente comum.

A proteção dos tubarões, portanto, não começa apenas com a proibição do finning ou com a proteção de pontos de mergulho conhecidos. Ela começa também com nomes claros, cadeias de fornecimento rastreáveis, compras públicas responsáveis e a simples pergunta sobre se os consumidores sabem realmente o que estão comendo.

Fontes e leituras adicionais

Alerta de Tubarão na Caixa de Correio

Notícias verdadeiras em vez de mitos!
- De 15 em 15 dias -