O Brasil é o maior mercado mundial de carne de tubarão. Porém, normalmente não aparece nas lojas como tubarão, mas sim sob o nome coletivo de “cação”. Um novo estudo publicado na revista Regional Studies in Marine Science mostra agora que esta falta de transparência não é apenas um problema de proteção de espécies: a carne de tubarão importada pode expor os consumidores a quantidades significativas de mercúrio.
A equipe de pesquisa liderada por Lucas Cabrera Monteiro examinou 39 amostras de músculos provenientes de carcaças importadas e comercializadas como “cação”. Usando códigos de barras de DNA, os pesquisadores também determinaram as espécies animais. 38 amostras vieram do Blue Shark (Prionace glauca), outra do Blue Marlin (Makaira nigricans). O estudo confirma assim o quão pouco o nome de venda por si só revela sobre o conteúdo.
Quase todas as amostras acima do limite internacional
As concentrações totais de mercúrio medidas estavam entre 0,336 e 2,758 miligramas por quilograma de peso fresco. A média foi de 1,363 miligramas por quilograma. Após avaliação, 95 por cento das amostras excederam o limite de segurança internacional utilizado pelo estudo; 77 por cento também estavam acima do limite brasileiro.
O mercúrio entra nos oceanos a partir de fontes naturais e artificiais e é parcialmente convertido em metilmercúrio. Esta substância particularmente problemática acumula-se ao longo da cadeia alimentar. Predadores grandes e de vida longa podem, portanto, ter concentrações significativamente mais altas do que muitos peixes menores. Como principais predadores, os tubarões estão no topo desta cadeia alimentar.
As crianças atingem a quantidade semanal tolerável particularmente rapidamente
Os pesquisadores também calcularam a ingestão possível durante uma semana. Para crianças de seis a 13 anos, os valores ficaram entre 0,805 e 6,613 microgramas de mercúrio por quilograma de peso corporal. 91 por cento das amostras de carne examinadas teriam resultado na quantidade de consumo excedendo a ingestão semanal provisoriamente tolerável.
Em adultos, a ingestão estimada variou de 0,525 a 4,315 microgramas por quilograma de peso corporal; Aqui, 71 por cento das amostras resultaram em excedência. Com base no percentil 90 de exposição, o estudo calculou uma porção semanal segura máxima de apenas cerca de 40 gramas para crianças e 75 gramas para adultos. Os autores ainda recomendam evitar totalmente a carne de tubarão importada, se possível.
“Cação” disfarça tipo e origem
O risco à saúde atinge um problema bem conhecido no mercado brasileiro: “cação” pode significar diferentes espécies de tubarões e raias. Sem um nome claro da espécie, os clientes não podem avaliar a ameaça a uma espécie, a sua origem, método de pesca ou níveis típicos de poluentes. Os controles também se tornam mais difíceis quando os filés e bifes não apresentam mais características reconhecíveis externamente.
Extensas pesquisas já mostraram que a carne conhecida como “cação” era oferecida até em escolas, hospitais e outras instituições públicas. Resumimos os antecedentes em nosso artigo “Carne de tubarão no menu”. O novo estudo de laboratório fornece valores medidos concretos e conecta diretamente o debate sobre rotulagem e proteção contra tubarões com a proteção do consumidor.
Os controles devem combinar identificação de espécies e poluentes
Os autores pedem procedimentos de inspeção mais rigorosos, melhor rastreabilidade e monitoramento mais amplo. Esta combinação faz sentido por dois motivos: uma análise química mostra se um produto representa um problema de saúde; A identificação genética da espécie mostra qual animal foi realmente comercializado e se se aplicam regras de proteção ou comércio.
Este é um ponto importante para proteção contra tubarões. Enquanto a carne de tubarão for vendida sob um nome colectivo vago, a procura permanecerá invisível para muitas pessoas. Rótulos claros, cadeias de abastecimento verificáveis e controles regulares de poluição não apenas protegeriam os consumidores, mas também tornariam mais fácil detectar o comércio de espécies ameaçadas.


