A forma como um tubarão nada parece estar inscrita no interior de suas vértebras. A Florida Atlantic University apresenta um estudo no Journal of Anatomy, no qual uma equipe comparou em três dimensões a arquitetura da coluna de seis espécies com modos de natação muito diferentes. O estudo foi publicado on-line em 14 de julho de 2026 e o comunicado científico detalhado saiu em 27 de julho.
Os resultados corrigem uma visão simplificada do esqueleto dos tubarões. Embora a coluna dos peixes cartilaginosos não seja formada por osso, seus centros vertebrais contêm placas mineralizadas chamadas lamelas e nós ramificados. O número, a forma e a disposição dessas estruturas variam entre espécies e ao longo do corpo até a cauda.
Comparação tridimensional de 139 vértebras
A equipe examinou 139 vértebras de 24 tubarões. Quando disponíveis, as amostras vieram das regiões anterior, média e posterior da coluna. A microtomografia computadorizada de alta resolução revelou as estruturas mineralizadas sem destruir as vértebras.
Os pesquisadores mediram o tamanho e a forma dos centros vertebrais, o volume de tecido mineralizado, as lamelas e suas ramificações. Assim, puderam comparar quais espécies possuem vértebras mais mineralizadas e como o projeto interno muda ao longo do corpo.
Transferência rígida de força nos tubarões rápidos
Os velozes nadadores oceânicos Tubarão-branco (Carcharodon carcharias), Tubarão-mako-de-barbatana-curta (Isurus oxyrinchus) e Tubarão-sardo (Lamna nasus) compartilhavam um projeto básico. As maiores vértebras ficavam no meio do corpo. Em direção à cauda, elas diminuíam, mas continham mais lamelas. Essa combinação pode estabilizar o corpo e enrijecer a região posterior para transmitir com eficiência a força muscular à nadadeira caudal.
O padrão combina com a natação tuniforme: grande parte do corpo permanece relativamente imóvel, enquanto os movimentos laterais rápidos se concentram no pedúnculo e na nadadeira caudal. A velocidade, portanto, também está refletida na arquitetura interna das vértebras, não apenas nos músculos e na forma externa.
O tubarão-raposa é o caso extremo
Tubarão-raposa-comum (Alopias vulpinus) foi especialmente marcante. Suas vértebras continham o maior número de lamelas mineralizadas e ramificações. Ao mesmo tempo, as vértebras posteriores eram fortemente comprimidas no sentido longitudinal e tinham grande área de contato com as vértebras vizinhas.
Os pesquisadores interpretam essa combinação como adaptação a cargas excepcionais. O tubarão-raposa-comum acelera o longo lobo superior da cauda e golpeia cardumes lateralmente ou por cima do corpo durante a caça. Sua coluna precisa suportar forças de várias direções, manter a estabilidade e permitir a mobilidade necessária ao golpe.
Parte do material do tubarão-raposa já havia sido analisada em um estudo de 2024 da mesma equipe. O novo trabalho insere essas vértebras em uma comparação mais ampla de seis espécies de quatro famílias de Lamniformes.
Manobrabilidade em vez de velocidade máxima
Em Tubarão-lixa (Carcharias taurus), os pesquisadores encontraram outra estratégia. As grandes vértebras anteriores diminuíam ao longo da coluna, havia menos lamelas e mais ramificações. Segundo a equipe, esse padrão favorece uma coluna mais flexível, adequada à natação lenta e manobrável em ambientes complexos.
Tubarão-peregrino (Cetorhinus maximus) representou o extremo oposto das espécies rápidas. Suas vértebras longas e muito côncavas eram pouco mineralizadas. Isso condiz com um filtrador lento, que enfrenta grande arrasto ao nadar de boca aberta, mas não precisa de uma coluna rígida para acelerações explosivas.
Um projeto com limitações
As explicações funcionais são hipóteses biomecânicas bem fundamentadas, não testes diretos de carga. Os animais não foram medidos enquanto nadavam, nem as vértebras foram levadas ao limite sob forças controladas. A função é inferida pelas estruturas tridimensionais, pelos modos de natação conhecidos e pelos padrões regionais da coluna.
Mesmo com essa limitação, a coluna de um tubarão não é uma haste uniforme de cartilagem. A evolução colocou material mineralizado onde cada espécie necessita de rigidez, estabilidade ou mobilidade. O princípio pode inspirar materiais técnicos leves, resistentes e flexíveis para robótica ou tecnologia médica.







